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sábado, Novembro 01, 2014

Marinha Real Portuguesa no Século XVIII e XIX





         Na guerra de 1793 a 1815,  primeiro nas guerras revolucionárias e depois nas guerras imperiais, quando se disputava o domínio mundial entre a Inglaterra e a França, Portugal viu-se envolvido pelo facto de ambos os países cobiçarem as nossas posições estratégicas em relação ao nosso poder ultramarino com os seus portos e fortalezas, esplêndidas no teatro da guerra naval. 

        

        Para a Inglaterra e para o seu Almirantado, eram posições de um grande valor estratégico numa guerra Atlântica e Europeia, e em especial na guerra contra o poder naval franco-espanhol (1796-1808), porque alem das vantagens de não permitirem a junção das forças franco-espanholas, do Mediterrâneo e do Atlântico com a colaboração das forças navais portuguesas, porque Portugal mantinha várias Esquadras na sua costa quer no Atlântico como no Mediterrâneo (a Esquadra do Oceano e a Esquadra do Estreito).

        

     Assim a Inglaterra dispondo dos portos portugueses podia utilizar facilmente as suas forças navais, aumentando a sua operacionalidade. Por esse motivo a Inglaterra não teve dificuldades em manter um bloqueio a Cádis com uma esquadra com base no porto de Lisboa e uma base avançada no porto de Lagos no Algarve.
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      A França procurou por todos os meios conservar Portugal fora do conflito e fechar todos os portos portugueses  à navegação inglesa. Por outro lado a diplomacia inglesa fez tudo para impedir os movimentos franceses. O Almirante Jervis dizia 'não poderia aguentar-se no mar e cumprir a sua missão com os seus navios operacionais sem o porto de Lisboa'.
       
     Depois da batalha do Cabo de São Vicente a 14 de Fevereiro de 1797, entre as Esquadras Espanholas e Inglesas, os navios britânicos danificados no combate, com a ajuda da Fragata 'Tritão', (que teve um importante desempenho no resultado da batalha - "ver Batalhas e Combates 1797 I") da Esquadra do Estreito da Marinha Portuguesa, durante a batalha e debaixo de fogo da artilharia da Esquadra Espanhola, rebocou a nau de linha de Nelson para o porto Lagos e a esquadra Britânica navegou para o mesmo porto. Procederam as primeiras reparações ao abrigo das nossas fortalezas, permitindo navegar para Lisboa sem o perigo de perderem alguns navios pelo caminho. Sem estas bases e sem a ajuda da marinha de guerra portuguesa, talvez a vitória do Almirante Jervis não fosse tão redundante, derivado aos portos ingleses estarem a grande distância. Portugal não se limitou a por os seus portos à disposição da frota Inglesa. Logo no ano de 1793, Portugal tomou quatro resoluções importantes de auxílio e aliança com a primeira coligação contra a França revolucionária. A primeira era a colaboração da Esquadra do Estreito com as forças inglesas do Almirante Goodall no Mediterrâneo. A segunda era o transporte de uma Divisão de Infantaria de auxílio nos Pirenéus, escoltada durante a viagem pela Esquadra do Atlântico. A terceira era a composição de uma esquadra a Esquadra do Canal para operar na Mancha com as forças inglesas. A quarta era a prontidão e aparelhamento da Esquadra do Oceano para a defesa dos mares portugueses. Por duas vezes em 1793 e em 1794, a Esquadra do Canal operou em combinação com as forças navais inglesas e de 1798 a 1800 as forças navais portuguesas tiveram uma importante participação para o domínio do Mediterrâneo das forças Britânicas. Portugal desempenhou um papel importante na luta da Inglaterra para a conquista do mundo, pelas suas esquadras e posições estratégicas, abrindo caminho para a batalha de Trafalgar e por conseguinte abriu as portas ao imperialismo Britânico do século XIX.

                            
    
      Não será surpresa constatar, que as responsabilidades das duas marinhas eram muito semelhantes, acções ligadas á guerra (capturar ou destruir navios inimigos), transportar tropas, bloquear portos, interceptar e inspeccionar navios mercantes, operações anfíbias, escoltar navios mercantes defendendo os navios da acção inimiga e de piratas, (a costa da África do Norte, até Trípoli, era um ancoradouro de piratas berberes), transportar deportados para o seu lugar de desterro, ou transportar dignatários aos seus postos de destino  (o exemplo singular neste período foi a jornada da Família Real portuguesa), transportar valores para a coroa, patrulha e defesa da costa. Durante os períodos de conflito a actividade era tão intensa que, nos vinte e quatro anos que durou a guerra, a Inglaterra perdeu 166 navios incluindo 5 naus-de-linha, em compensação capturou 1.201 navios inimigos, incluindo 159 naus-de-linha e 330 fragatas. Portugal perdeu a Fragata 'Minerva' perto do Sri Lanka em 1809 e capturou vários navios corsários franceses e berberes na costa e nas rotas ultramarinas quer no Atlântico Sul, como no Índico. Uma esquadra portuguesa, (A Esquadra do Estreito)  com base no porto de Lagos e com uma base avançada em Gibraltar, patrulhava permanentemente a costa da África do Norte. Anualmente um comboio de navios mercantes com 80 ou mais navios, com destino à Índia e ao Brasil, era protegido até alcançar as ilhas do Atlântico, e em data previamente combinada, a Esquadra do Oceano era despachada para cruzar os mares perto dos Açores e acompanhá-lo até ao Tejo. No Oriente a Inglaterra se ocupava em defender os navios da Companhia das Índias (East India Company).

                                       
     Os mares por onde velejavam eram tão perigosos que além da escolta os navios mercantes tiveram que ser armados. Outra influência que aproximava as marinhas partia dos oficiais. Na Inglaterra, durante os anos de conflito, a marinha empregava 120 mil homens embarcados (de 600 a 800 navios no activo), em tempo de paz 18 mil homens. O resultado desta política era que os marinheiros perdiam seus empregos, os fuzileiros navais voltavam para as suas casernas e os oficiais que ficavam sem navio, tinham os seus vencimentos reduzidos para metade. Talvez esta fosse a principal razão pela qual muito procurou a marinha portuguesa para,  empregar, nos últimos 40 anos do Século XVIII de 35 oficiais que fizeram esta transição (um número considerável considerando que a marinha portuguesa, neste período, tinha uma frota de guerra de 25 a 30 navios de linha de combate). Até na jornada da Família Real para o Brasil dois Brigues que foram no esquadrão, o ‘Lebre’ e o ‘Vingança’, tinham no seu comandado os Ingleses Daniel Thompson e James Nicolas Keating. Com relação aos homens embarcados, a escassez de marinheiros talvez fosse o maior problema das marinhas. Mesmo recrutando-os usando força física nas tabernas, retirando-os das prisões antes de terminar de cumprir a pena, transferindo-os de navios mercantes em alto mar ou, antes de atracar, para navios iniciando uma nova viagem, mesmo assim quase sempre os navios saíam do porto com sua guarnição incompleta.
        

     Comentava-se na época, que o almirantado inglês não encorajava a natação com receio de perder marinheiros, enquanto o navio permanecia numa bóia de amarração. As condições a bordo eram péssimas. Os marinheiros Britânicos ganhavam 15 libras por ano, usualmente pago com atraso de vários meses, roupas (o uniforme só foi introduzido em 1857 na Inglaterra) e ferramentas perdidas ou quebradas eram descontadas. A única chance de ganhar algum dinheiro era na venda de uma presa, (um exemplo extremo foi a captura do navio espanhol ‘Hermione’ em 1762, a sua venda rendeu, para cada marinheiro, o equivalente a 36 anos de salário). Os fuzileiros eram mais parecidos com soldados, a bordo tinham funções de guarda e de manter a disciplina, durante uma batalha subiam nas vergas e tentavam acertar os oficiais do navio inimigo. Participavam de algumas tarefas, como levantar a âncora, nas operações anfíbias a sua participação era essencial.


      

      Os oficiais  nas marinhas, começavam sua carreira aos 11 ou 12 anos de idade, indicados por um ‘padrinho’, (para acabar com esta situação foi criada a academia real da marinha por decreto de 5 de Agosto de 1779),  instruídos, durante as muitas viagens, pelo padre ou pastor e o capitão, eventualmente submetiam-se ás provas do Almirantado, condição indispensável para serem promovidos a capitão. A partir da data desta promoção a ordem era estritamente seguida e, se sobrevivessem e não fossem punidos pelo conselho de guerra, com o tempo alcançariam o posto de almirante. A promoção poderia vir enquanto bem jovem, conforme ocorreu com o Contra-Almirante de pavilhão azul sir William Sidney Smith (o comandante da esquadra inglesa que acompanhou a frota portuguesa que levou a Família Real para o Brasil em 1807/08), este foi promovido a capitão-de-mar-e-guerra com apenas 18 anos de idade. Nenhuma guarnição estaria completa sem o padre ou pastor, os cozinheiros, alfaiates, padeiros, carpinteiros, canhoneiros, armeiros, o cirurgião e seus assistentes, escriturários e criados. Um capitão tinha direito a 4 criados para cada 100 homens na guarnição, assim numa Nau de Linha como a de 74 peças de artilharia o capitão era bem servido com 24 criados.


                                            

     Não podemos esquecer o enorme contingente de homens, ligados à marinha, que permaneciam em terra, incluíam os que trabalhavam nos estaleiros, nas cordoarias, nos arsenais, também na compra de madeira, pano, pólvora, mantimentos, água, cerveja, vinho, rum e mil outros itens indispensáveis para o bom funcionamento de um navio. Também os conselhos de guerra e os tribunais de presas, aonde era julgado o valor de quem participaria na venda do navio capturado. Lembramos ainda os hospitais mantidos pelas marinhas, e outras repartições da marinha que mantinham a Armada em funcionamento.
          
      A luta pelo domínio do mundo entre a Inglaterra e a França, que não nos interessava, passou para território português em 1807 com a ocupação do nosso território pelos exércitos franceses e espanhóis. A família real portuguesa teve que retirar-se para o Brasil, e Portugal passou a ser devastado por uma guerra cruel em que os “amigos” faziam, por vezes mais estragos que o inimigo. A retirada da família real para o Brasil, acompanhada pela frota de guerra portuguesa e das repartições da Marinha de Guerra com as belas Esquadras de Naus de Linha e Fragatas, adquiridas pelo Ministro e Secretário da Marinha Melo e Castro e com ela um sem-número de bons oficiais, perderam-se para Portugal.